Guarda-parque da Serra da Capivara dá sua vida em defesa da fauna e flora da Caatinga - Texto de André Pessoa

21/08/2017

Foto: Autor desconhecido
Foto: Autor desconhecido

O drama que o Parque Nacional Serra da Capivara - Patrimônio Cultural da Humanidade pela Unesco - vive nesse momento de insegurança, representa simbolicamente a situação de impunidade, descaso, corrupção e outras mazelas que o Brasil atravessa.

O tiro que vitimou o guardião da natureza Edilson Aparecido da Costa Silva, 50 anos, pai de 5 filhos, é uma forma simbólica de atingir a pesquisadora Niéde Guidon, 84 anos, sendo mais de 4 décadas totalmente dedicadas as pesquisas e estruturação do Parque Nacional Serra da Capivara. Mataram um "soldado" da linha de frente, mas a verdade é que desejam "calar" a generala (feminino de general) de uma revolução ambiental, social, cultural e econômica que grande parte da nossa sociedade ainda não compreende sua importância.

A realidade em pleno século XXI no interior do Piauí é que caçadores tiram vidas humanas em troca de um tatu, um jacu ou uma cutia, e não é para sua própria subsistência pois estavam armados com revólver calibre 38, ou seja, tinham posses e caçavam para vender o produto do crime. Por mais absurdo que pareça é como se fosse possível voltar no tempo quando homens e animais viviam lutando pela sobrevivência usando os recursos naturais disponíveis na natureza.

Trocar a vida de um trabalhador, um pai de família, um sertanejo calejado pela lida diária pela sobrevivência por um animal selvagem é inadmissível. Edilson tinha 20 anos de serviços prestados em defesa da natureza. Ex-caçador, ele utilizava seus conhecimentos para treinar as equipes de guardas-parque e passar os conhecimentos adquiridos na Caatinga. Morreu lutando pela preservação da área ambiental. Dois outros guardas-parque foram atingidos por tiros de revólver 38 e seguem se recuperando.

Responsabilidade do Governo Federal

O Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), deve assumir toda a responsabilidade pela morte do guarda-parque e pela situação a que submeteu seus "prestadores" de serviços, como eles chamam os defensores da natureza. A empresa terceirizada é de São Paulo e até ontem nenhum representante legal tinha chegado a São Raimundo Nonato para prestar assistência a família do Edilson e dos guardas baleados.

O contrato dos guardas-parque tinha sido modificado em março passado por restrições orçamentárias e nessa mudança eles perderam o porte de armas, o uso dos coletes à prova de balas e a atribuição de fazer rondas armadas. Ou seja, o próprio ICMBio "levou" seus prestadores de serviços para "boca do leão", para usar um ditado popular. E o objetivo foi um só: contenção de gastos numa área essencial para preservação de um parque que é modelo mundial.

O resultado não poderia ter sido mais trágico. Para piorar, o próprio ministro do Meio Ambiente, Sarney Filho, esteve na Serra da Capivara em 2016 logo após assumir o ministério e "garantiu" em encontro com os guardas-parque que nada seria modificado em seus contratos. Ao contrário, Sarney disse que dali em diante eles teriam o apoio fortalecido e as equipes de fiscalização seriam ampliadas. Edilson acreditou e continuou defendendo o parque. Terminou pagando com sua própria vida.

Atendimento médico em São João do Piauí

Dentro de toda essa tragédia um fato merece ser destacado - a atenção, profissionalismo e dedicação da equipe do Hospital de São João do Piauí. Assim que Edilson chegou baleado ao local, toda a equipe técnica do hospital e da secretaria municipal de saúde do município, além da unidade do SAMU, foram mobilizadas para tentar salva-lo.

O próprio prefeito de São João do Piauí e presidente da Associação Piauiense de Municípios (APPM), Gil Carlos, que é médico, foi pessoalmente para sala de atendimento e coordenou todas as ações na tentativa de salvar a vida do Edilson. Na foto é possível ver a atenção dedicada ao guarda-parque que foi atendido por uma equipe de três médicos e vários auxiliares.

Infelizmente o tiro teve consequências terríveis no corpo do guarda-parque que não resistiu aos ferimentos e terminou falecendo de hemorragia interna após sofrer três paradas cardíacas. Até a unidade do SAMU aéreo já tinha sido acionada em Teresina para fazer o transporte do paciente para capital na tentativa de salva-lo a qualquer custo.

Caçadores não medem consequências e continuam agindo livremente no sertão.